ENCONTRO ADIADO

Por: Francisco Salgueiro

Olhei para o relógio. Olhei para a mulher. Voltei a olhar para o relógio e achei que o melhor seria não voltar a fazer o movimento porque estava a aproximar-me perigosamente de um torcicolo. Daqueles que podem provocar lesões para sempre, deixando mazelas no DNA, logo fazendo com que os meus futuros filhos viessem a ficar com o mesmo problema.

Encontrava-me no aeroporto de Heathrow, em Londres. Pela segunda vez em 2012 estava a apanhar o voo de regresso para Lisboa e pela segunda vez o voo tinha sido cancelado e remarcado para umas horas mais tarde.

Gosto de ficar preso em Heathrow. Gosto de tirar fotografias às pessoas na sala de espera. Quanto mais tempo lá fico, maiores as possibilidades de tirar boas fotografias.

Mas eu e a minha bateria estávamos em fase de litígio. Tinha-me esquecido de pô-la a carregar na véspera e sabia que não iria conseguir mais de 30 fotografias. O que não seria mau se ficasse 30 minutos à espera do avião, mas era muito pouco ficando lá as seis horas previstas. Exacto, isto ainda não vos tinha dito. Seis horas.

O que se faz em Heathrow durante seis horas? Dormir. Mas tenho sempre algum receio que me possa babar e alguém me tire uma fotografia (eu tiraria) e que umas horas depois apareça na internet (eu colocaria). Visitar as lojas. São sempre as mesmas. Fora de questão. iPad. Não há Wifi gratuito. Já bati todos os recordes no Angry Birds.

Tirei fotografias. 30. A bateria morreu e foi para o paraíso ter com 70 baterias virgens.

– Olá – disse-me uma voz, em inglês, enquanto eu acabava de tirar a última fotografia. A voz tinha uma farda. Segurança.

Entrei em pânico. Entre 5 e 6 gotas de suor escorreram pela minha cara batendo o recorde dos 100m do Usain Bolt (estava a ir-me embora de Londres no dia a seguir ao encerramento dos Jogos Olímpicos. A minha cabeça ainda estava cheia de metáforas Olímpicas).

– Posso ver o que leva aí consigo? – perguntou-me a voz.

Ia ser preso. Sempre que estou num aeroporto tenho a certeza que brevemente serei preso por tirar fotografias na sala de espera. Provavelmente acharão que sou da AlQaeda. O cabelo é curto, a pele clara, não visto togas, mas mesmo assim poderia ser um agente infiltrado. Nunca se sabe. Se calhar nem eu próprio sei. Foi o que aconteceu com o Jason Bourne.

Comecei a tremer. Seria enviado para Guantanamo num avião que faria reabastecimento na base das Lajes e anos mais tarde os nosso ministros negariam que isso tivesse acontecido. Eu iria desaparecer da Terra sem ninguém saber onde me encontrava.

Tentava arranjar uma desculpa para estar a tirar fotografias quando a pessoa que estava à minha frente – segurança, polícia, serviços secretos, ou outra coisa com autoridade – esticou os músculos dos lábios. Sorriu com intensidade e deu-me um abraço.

– Há quanto tempo!

Nesse momento o meu cérebro fez um rewind à velocidade do som, nos primeiros dois segundos, e à velocidade da luz a partir daí. A frase fora dita em português. O segurança, polícia, serviços secretos, ou outra coisa com autoridade, conhecia-me. Tentei recordar-me rapidamente de quem poderia ser antes que o abraço acabasse.

– João! – disse eu de forma automática quando olhei para ele. Era o John. Não o via há mais de 25 anos. O meu cérebro ainda se encontrava em forma. Passaria a arrendá-lo para festas e baptizados.

Tínhamos sido amigos há muitos anos. 25. Em Lisboa. Nunca mais nos tínhamos visto.

Durante cinco minutos parecíamos estar num chat de engate: o que fazes? és casado? onde costumas sair? Sobre mim não vale a pena descrever porque sabem o que faço. Ele também. Leu os meus livros (“A história de O fim da Inocência é mesmo verdade?”, “Gostava de ter feito pesquisa contigo para esse livro”). Sobre ele, os pais eram ingleses, tinham regressado a Londres há 25 anos e hoje é sub-director de segurança no aeroporto de Heathrow.

– Tens de me acompanhar – disse-me. Pelos vistos ainda não estava totalmente fora de questão ir preso.

Puxou-me pelo braço e começámos a andar por um corredor. Longo. Com uma passadeira rolante. Tentei construir várias respostas possíveis para o interrogatório que iria seguir-se brevemente. Que tipo de tortura me iriam fazer? Com penas? Gotas de água na cabeça?

Continuámos a andar pelo corredor e ele ia falando sobre a sua vida em Londres. Aquilo era uma manobra para me confundir de modo a que mal chegássemos à sala de interrogatório eu dissesse de imediato à minha morada secreta no Iémen.

– Quero mostrar-te uma coisa. Um dia ainda vais escrever um livro sobre isto.

Oh não! Ele tinha acabado de dizer a frase que mais vezes oiço. Normalmente, sem eu dar autorização, as pessoas começam a contar uma história que não tem interesse e logo de seguida tenho de inventar que estou atrasado para uma audiência com o Papa e fujo. Mas o João/John sabia que o meu voo estava muito atrasado. Eu não tinha escapatória.

Aproximámo-nos de uma das portas de embarque e apontou com a cabeça para uma pessoa que estava sentada num dos bancos.

– Olha ali em frente.

Diante de nós, a pouco mais de 20 metros, junto de uma porta de embarque que já tinha fechado, estava um senhor de cabelo branco que encarava o corredor com um olhar infinito. Imóvel. Apenas as pestanas demonstravam ter vida.

– Todos os anos vem cá… – começou a contar-me:

“Vim trabalhar aqui em Heathrow há quinze anos. Sete ou oito meses após o meu primeiro dia, encontrava-me a fazer uma vistoria neste corredor… aliás, no corredor que havia neste local antes das obras… quando vi um senhor levantar-se de um banco. Não achei nada de estranho. Era apenas mais uma pessoa que estava no aeroporto. Continuei a andar mas percebi que estava uma coisa no banco. Parecia-me ser um envelope. Aproximei-me e de facto era o que eu pensava.

Chère Julie.

Apenas esta frase escrita na parte de fora. Virei-o e não estava colado. Apenas fechado.

Peguei nele. Se fosse hoje provavelmente chamaria de imediato uma brigada anti bombas. Poderia ser um envelope com Antrax. Mas naquela altura não havia essa paranoia e decidi abri-lo.

Chère Julie.
Como combinado aqui estou. Deixo-te esta carta para que me contactes, número xxxxxxxxxxxxxx. Se não me disseres nada para o ano cá estarei novamente
Love Peter

Li aquilo algumas vezes, entretanto fui chamado para uma das salas de embarque porque estava a haver um problema e só me voltei a lembrar da carta umas horas mais tarde. Teria sido escrita pelo velhote? Ele iria lá estar de novo no ano seguinte?

Passaram-se 12 meses e nunca mais me lembrei da carta ou do velhote, que na altura não era tão velhote como agora. Guardei-a dentro de uma gaveta.

No ano seguinte, quando estava a trabalhar nos monitores de segurança vi uma pessoa. A cara não me era estranha. Como eu via milhares de pessoas por dia pensei que seria apenas mais uma e… era o velhote! A carta! Tentei encontrar a câmara que estava junto do banco onde o vira no ano anterior. Câmara 123b. Virei-na na direcção do banco e em cima dele novamente um envelope. Pedi para as meus colegas que estavam nesse corredor lá irem e trazerem-me o envelope.

Abri-o e lá dentro estava novamente o mesmo texto. A única diferença era a data.

Tentei procurar rapidamente o senhor através das câmaras mas já só o apanhei a meter-se dentro de um táxi e ir-se embora.

Fiz um rewind àquela câmara e vi que o senhor se tinha sentado no banco duas horas antes e lá ficara muito quieto a olhar para o corredor durante esse tempo. Depois da porta de embarque ter sido encerrada ele tirou o envelope de dentro da gabardina e deixou-o em cima do banco.

Pela minha cabeça apenas passava uma pergunta “Quem seria aquele senhor que comprava um bilhete para poder aceder à zona de embarque, olhar para o corredor e deixar uma carta?”

Peguei no meu Nokia e fiz um lembrete para daí a um ano. “Ver se o senhor das cartas está no aeroporto.”

Um ano depois o alarme do telefone tocou, eu olhei para ele, relembrei-me do senhor e era a grande oportunidade de saber o que se passava. Mas virei-me para o outro lado da cama e voltei a dormir. Estava com 40 graus de febre. Uma gripe já com dois dias que me levava a poder ser considerado marido do lençol. Naquele momento não me interessava mais nada a não ser ficar bom. O que aconteceu uns dias depois. Voltei para a sala dos monitores, liguei-me à câmara 123b e vi as imagens de há 5 dias. O mesmo ritual. Velhote chega, senta-se. Porta de embarque fecha. Deixa envelope e vai-se embora.

Durante esse ano fui-me lembrando várias vezes daquele senhor. Há medida que o mês de Agosto se foi aproximando eu não precisei de um alarme no telemóvel para saber que no dia 13 de Agosto deveria estar atento àquele corredor.

O que acabou por acontecer. Tinha de falar com o senhor. Perceber o que se passava.

Mas o meu chefe lembrou-se de convocar uma reunião para aquela hora. Eu tinha 120 minutos. A reunião não iria durar assim tanto tempo. Não haveria problemas. Só que ele atrasou-se. Muito. Apareceu 55 minutos depois. Comecei a temer que uma vez mais eu não conseguisse falar com o senhor. A reunião começou e foi-se arrastando.

Eu já só tinha pouco mais de 20 minutos. Da sala onde eu estava até àquele banco demoraria uns 15 minutos. Não poderia ir a correr para não levantar suspeitas. Por isso, a marcha e 15 minutos seriam o meu recorde.

“Tenho de ir à casa de banho” foi o que eu disse quando vi que o meu tempo estava a chegar ao limite. Se escreveres um livro baseado nesta história não coloques isto (desculpa João). Saí da sala à pressa e dirigi-me para o local.

Quando cheguei, lá estava o senhor naquela posição a olhar para o corredor como se esperasse por alguém.

Sentei-me ao seu lado. Não o quis perturbar. Tive a mesma sensação que se tem ao entrar numa igreja. Calamo-nos mesmo que não haja uma missa.

Ficámos quietos durante uns 3 minutos. Aí ele começou a falar com uma voz triste sem nunca tirar os olhos do corredor:

“Estávamos em 1946 quando conheci a Julie. Foi no Verão a seguir a ter terminado a segunda guerra. Eu participei no desembarque na Normandia. Quando tudo terminou voltei para Windsor, onde vivia com os meus pais. Tinha 19 anos.
Eu trabalhava nos correios. Depois da emoção de ter participado na libertação dos nazis sentia-me preso naquele local. E foi ela que me voltou a fazer sonhar. Quando a vi pela primeira vez a entrar pelo posto de correio foi como se tudo à volta dela tivesse ficado a preto e branco. O seu cabelo ruivo iluminou-me. Ela tinha vindo de França para fazer de babysitter a duas crianças na vila.
Convidei-a para sair. Disse-me que não. Uma, duas, três vezes. Não desisti. Ela ia todas as semanas ao correio a pedido da família onde trabalhava.
Um dia ela foi lá com as duas crianças. O Thomas e a Mary. Perguntei-lhe uma vez mais se não queria sair comigo.
“A Julie tem um namorado, a Julie vai casar”. O Thomas e a Mary começaram a brincar com ela. Ela sorriu e disse que sim.
E começou o verão mais maravilhoso da minha vida. Não nos encontrávamos tantas vezes quantas as que eu gostaria, porque ela ficava com as crianças até adormecerem e depois tinha de arrumar a casa. Eu ia ter à porta das traseiras e ficávamos à conversa durante horas. Tínhamos um sonho: Barcelona. Ela queria conhecer Barcelona. As touradas, a arquitectura, o mar. Eu apenas queria ficar com ela.
Até que ela foi com a família numa viagem a Londres e nunca mais apareceu.
“Uma desgraça. O menino morreu. Um ataque cardíaco, um atropelamento.” Pela vila correram várias versões do que acontecera. O único elemento comum é que o Thomas tinha morrido. Nem a família nem a Julie voltaram a Windsor.
Os dias passaram de forma arrastada. Sempre que ouvia a porta do posto de correios a abrir, olhava com a esperança de poder ser ela. Não era. Nunca foi.
Até que recebi uma carta. Dirigida a mim. Ao meu primeiro nome. Nunca lhe tinha dito o meu apelido. Com a morada da estação de correios. Abri-a depressa rasgando o envelope

Dear Peter,
Foi uma tragédia. O pequeno Thomas apanhou uma pneumonia. Não aguentou e morreu. Os pais não quiseram voltar a Windsor e eu também não consigo regressar aí. Há demasiadas recordações. Nunca te disse, mas sou órfã. Não tenho nada que me prenda a França nem a Inglaterra. Gostava de ir para Barcelona tal como falámos. Vou marcar um voo para a próxima 4ª feira. Vou gastar todo o dinheiro que tenho para começar uma vida nova. Gostava que viesses ter comigo.

E fui. No dia combinado lá estava eu no aeroporto. E fiquei lá durante dois dias. Ela nunca apareceu. Não percebia o que podia ter acontecido.
A única pista que tinha vinha no envelope da carta que ela me enviara. A morada de uma pensão no East End, em Londres. Fui lá e disseram-me que a Julie tinha feito o check out no dia do embarque para Barcelona e que ninguém mais a vira. Fui à polícia e apresentei uma queixa. Apenas sabia o primeiro e último nome dela e o local onde fora vista pela última vez. Durante as semanas seguintes fui a hospitais e andei a perguntar na rua se a teriam visto. Nada. Ela simplesmente desparecera.
Voltei para Windsor e continuei a trabalhar no posto de correios. Ela sabia que era lá que eu trabalhava e poderia ir à minha procura. Não me podia arriscar a ir para outro local. Fiquei lá por amor a ela.
Os meus dias foram passando apenas com um único objectivo: chegar ao ano seguinte, comprar um voo para Barcelona, para o dia e hora combinados, e esperar pela Julie.
E é o que tenho feito nos últimos 57 anos. Fico aqui à espera que ela possa aparecer.”

Como segurança, estou habituado a ver muitos dramas aqui em Heathrow, mas quando o Peter me acabou de contar esta história eu estava a chorar em silêncio. Não consegui dizer-lhe nada. Olhei para o lado e ele já se tinha levantando e caminhava lentamente pelo corredor.

Mais um ano e a Julie não tinha aparecido.

Durante os anos seguintes voltei a vê-lo aqui. Nunca mais tive coragem de me aproximar dele. Aquilo que inicialmente fora uma curiosidade, uma coscuvilhice, era algo que provocava uma dor bem forte naquela pessoa. Senti que tinha de o ajudar.

Já trabalhava na segurança do aeroporto há algum tempo, tinha feito cursos de defesa pessoal, de desmantelamento de bombas e conhecera alguns polícias.

Contei a história a alguns deles e pedi ajuda. Deram-me algumas indicações dos locais por onde eu poderia descobrir o que acontecera àquela senhora tantas décadas depois.

Nos registos fronteiriços não havia nenhuma indicação de ela ter saído de Inglaterra naquele dia, nem nas semanas ou meses a seguir. Logo ficara em Inglaterra. Como fora ela a combinar com ele não faria sentido estar a fugir do Peter. Logo deveria ter-lhe acontecido alguma coisa.

Fui aos hospitais próximos da zona da pensão e tentei ir aos registos. Difícil. Foi uma tarefa que fui fazendo ao longo de alguns meses. Um pouco de cada vez porque aquilo não era uma prioridade na minha vida. Não havia nenhuma entrada dela.

Foi aí que, pela primeira vez, me lembrei que se calhar o velhote estaria a mentir. Podia ser uma história em que ele próprio acreditasse mas que não tinha acontecido na realidade.

Comecei a desinteressar-me e só uns dois anos mais tarde me lembrei que se calhar poderia ter acontecido alguma coisa à Julie perto do aeroporto e não perto da pensão. Depois de pesquisar para que hospitais as pessoas eram levadas quando acontecia alguma coisa em Heathrow, nessa altura, descobri o registo de entrada de um casal que morrera num acidente na estrada a caminho do aeroporto. O táxi ficara desfeito, o taxista sobrevivera mas os dois ocupantes morreram. Combinei um encontro com o taxista.

Foi aí que percebi o que se passara: a Julie partilhara o táxi para ficar mais barato. Quando os cadáveres deram entrada num hospital foram registados como casal. O Peter procurara sempre por uma senhora. Sozinha.”

A voz do John foi diminuindo de volume até se apagar. A história tinha chegado ao fim. Senti algo em mim muito forte. Pena. Tristeza. Não sei. Era apenas um vazio.

A minha cabeça seguia automaticamente o velhote que caminhava pelo corredor com muita dificuldade, ajudado por uma bengala, no seu ritual anual. A Julie não tinha vindo. Uma vez mais.

– Sabes… – continuou o John. – Nunca tive coragem de lhe relatar a minha descoberta. Todos os anos vejo-o aqui e sinto que lhe devia contar. Mas… sei que se lhe disser destruirei o que resta dos seus dias. Ele viveu em função desse encontro durante toda a vida. É a esperança que o mantém vivo.

– Achas que vale a pena ele continuar apenas a sobreviver? – perguntei.

– …

– Não consigo imaginara dor de alguém vivendo décadas em função de um encontro que sabemos que nunca vai acontecer. Será que ele não tem o direito de saber isso? de ser ele a escolher se quer continuar a estar vivo?

– …

Embarquei no avião, cheguei a Lisboa. Penso na história todos os dias. Terei o direito de matar alguém? Mas não estará já ele morto? Se fosse comigo gostaria que me contassem?

Neste momento, tenho apenas uma certeza: para o ano estarei lá. Na altura tomarei uma decisão.

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