OS QUILÓMETROS QUE NOS SEPARAM

Por: Francisco Salgueiro
A casa encontra-se sozinha. Esquecida. O som que vem do quarto é apressado. Tem uma urgência a que já me habituei nos últimos dias. Corro para ele deixando de lado o que estou a fazer.
– Olá pai.
A imagem da Maria aparece no ecrã. Não é igual à mãe. É diferente, é ela, mas a forma como morde o lábio faz-me lembrar a Teresa.
Esteve a chorar. A cara vermelha denuncia-a apesar de ter limpo as lágrimas antes de a imagem do Skype nos ter ligado. Os olhos ainda continuam a reflectir as lágrimas que lá se hospedaram.
Está com uma voz ferida. Manchada pela dor.
Começo a desfazer-me por dentro. Não posso chorar. Tenho de lhe transmitir calma e segurança. A Maria tem de saber que pode contar comigo.
– Pai tenho tantas saudades dela.
Estou na cozinha a preparar o jantar. Ao longe ouço a televisão. Não sei o que dizem. Estou concentrado a cortar uma cenoura. Sinto uma vibração no bolso. É curta. Foi uma mensagem que chegou ao telemóvel. Pode ser importante. Pode ser ela. Sim, pode ser ela. Limpo depressa as mãos uma na outra. Continuam sujas. Enfio a direita dentro do bolso. Faço deslizar o dedo no visor.
“Estou a ligar-te há horas no Skype. Porque não atendes?”
A televisão. O jantar. A cenoura. Não ouvi. Dirijo-me de imediato para o quarto. Sento-me à frente do computador. Ligo o monitor e vejo ter 4 chamadas perdidas da Maria.
Ligo para ela.
– Olá pai.
– Olá querida.
– Adivinha…
– A entrevista?
– Sim. Telefonaram-me de volta. Querem que eu comece a trabalhar lá assim que acabar o curso. Estou tão contente.
Sorrio. Demonstro-lhe a minha felicidade. Sim, estou feliz por ela. Mas estou egoisticamente triste. A Maria está longe de mim há pouco tempo. Parece demasiado. Dois meses.
– Obrigado por me teres sugerido fazer Erasmus.
Sim, eu fui o culpado. Terá um pai o direito de prender a sua filha junto a si para não se sentir só?
Sinto-me sozinho.
Estou à frente do computador há dez minutos. Olho para a fotografia da Teresa que tenho como wallpaper. Nós os dois. Abraçados no dia do nosso casamento. Agora vejo-o de fora. Lembro-me de cada segundo, mas é como se não tivesse acontecido comigo. Foi há 21 anos. Na fotografia já se vê a barriga. O coração da Maria já batia há quatro meses.
Casámo-nos porque era suposto. E era suposto não ter durado muito tempo.
O som do Skype desperta-me dos meus pensamentos zangados. O meu coração bate um pouco mais depressa. Crio uma fantasia que possa ser a Teresa a ligar-me. Impossível. Eu sei.
– Olá pai.
– Olá querida.
– Gostas?
Olho horrorizado para um piercing que a Maria meteu na língua. Gosto?!
– Mas, o que é isso?!
– Um piercing
Responde-me como se eu fosse um pai pré-histórico. Como se eu não soubesse o que é aquilo.
– Porque é que foste mutilar o teu corpo?!
A minha pergunta sai inquisitiva.
– Mutilar o meu corpo?!
– Sim. Isso é horrível.
Continuo a disparar frases agressivas. Duras. Secas. Faz-me falta a Teresa. Faz-nos falta a Teresa.
– Odeio-te!
E de repente deixo de ver a imagem dela. Aparece o menu do Skype.
Arregaço a manga do meu braço direito e vejo as tatuagens que lá tenho. Lembro-me do que os meus pais me disseram quando as fiz.
Fui hipócrita com a Maria.
Olho para o relógio. De forma indiferente os ponteiros continuam a movimentar-se. Não lhes interessa a minha ansiedade. A videochamada diária da Maria está com 30 minutos de atraso. Não lhe quero ligar a perguntar porque ainda não me contactou. Não quero que ela perceba que este telefonema é a coisa mais importante que tenho no meu dia desde há 5 meses.
Acordo sobressaltado. O sonho foi invadido por um alarme que me avisava que algo de mau tinha acontecido à Maria. Sinto que o alarme continua a tocar. Vem do quarto. Levanto-me e dirijo-me de imediato para lá. Ainda estou confuso. Sei que não é um alarme.
– Desculpa. Desculpa. Desculpa.
A Maria. Pela primeira vez nos últimos 5 meses não começamos a chamada com “Olá Pai.”
Olho para o canto inferior direito do ecrã e o relógio do computador diz que já é tarde. 23:55.
– Não faz mal.
Claro que faz. Estive sem saber o que te teria acontecido. O meu corpo desligou-se para que não fosse tão doloroso o tempo passar sem ter uma notícia tua.
– Só agora cheguei a casa.
Atrás dela vejo um vulto. Entro em pânico. As roomates dela foram de férias para os seus países. A Maria também devia ter cá vindo. Disse que ainda não estava preparada.
– Maria…
A minha voz arrastada. O meu olhar de medo. Ela olha de imediato para trás.
– Pai quero que conheças o Pierre.
Pierre?!
Ao lado dela aparece um rapaz louro, de óculos, com ar de pretendente a poeta. O meu olhar fica aprisionado.
Ele sorri muito, abanando o braço com intensidade dizendo olá. Tenta ver se me conquista com a simpatia. Devolvo o sorriso. Não sei em que estado sai.
– Oulá.
Diz-me num português ensinado pela Maria.
Olho para ela sem perceber o que se passa. Sim, eu sei que deve ser o namorado. Nunca me tinha contado nada. Contamos tudo um ao outro.
– Desculpa não te ter dito nada. Não sei porque não o fiz. Talvez porque não fosse nada sério. Agora é. E estou feliz.
Pela primeira vez, em 6 meses, vejo-a feliz. Pela primeira vez, em 6 meses, eu fico feliz.
Estou a trabalhar no computador. O dia está quase a nascer. Há muito tempo que o meu corpo não permite que eu descanse. Aproveito para trabalhar. Tenho de ir a tribunal amanhã. É o meu regresso desde que tudo aconteceu.
Subitamente o ecrã branco do Word transforma-se na fotografia da Maria. Um bug? Um vírus? A minha imaginação?
A minha velocidade de raciocínio não é tão eficaz como já foi. Demoro uns segundos a perceber que é uma videochamada da Maria. Estou em negação. Ela não me pode estar a ligar a estas horas.
– Olá pai.
Esta frase é dita com a voz estrangulada, em convulsões de choro, como não via desde o dia em que a Teresa foi enterrada.
– O que foi querida?
A minha pergunta é feita com um desespero que não pode ser disfarçado.
– O Pierre… ele… ele…
A Maria não precisa de acabar a frase. Eu sei o que ela vai dizer. Todos passámos por isto. Valerá a pena dizer que irá encontrar outra pessoa? Que se este foi embora então não era a pessoa certa?
Não.
O choro da Maria é interrompido pelo meu. Lágrimas torturadas queimam a minha pele. Ela nunca me tinha visto assim.
– Pai…
Recordo-me da Maria a chorar quando lhe disse que a Teresa tinha morrido. Nesse dia tive de travar as lágrimas, mesmo sabendo que tinha de lhe contar a violência da morte da mãe. Uma facada num assalto junto ao multibanco. Tinha ido levantar dinheiro. Em baixo do nosso prédio. Nunca soubemos as razões. Quero imaginar que tenha sido a resistir. A Teresa trabalhava na UNICEF. Era a mulher mais lutadora que eu conheci. Foi isso que levou a apaixonar-me por ela. E, assim, um casamento condenado ao fracasso tornou-se numa união de amor.
Foram 10 meses em que tive de ser forte à frente da Maria. Não aguentei ao vê-la sofrer por um poetazeco.
– Pai… não chores. Estou aqui.
Pela primeira vez estou a ser confortado pela minha filha.
Hoje o som do Skype é diferente. Na minha cabeça ele toca de forma alegre. Dirijo-me para o computador. Vou com uma descontração que há onze meses não tinha. As primeiras chamadas da Maria levavam-me a um caminhar tristemente ansioso. Tenso. Hoje vou com calma.
– Olá pai.
Sorrimos um para o outro sabendo o que irá acontecer em breve. Por detrás dela, e pela primeira vez, não vejo a porta do quarto no andar na Rue Saint-Martin. Agora há dezenas de pessoas que andam apressadas de um lado para o outro. Vão apanhar um vôo.
Durante uns segundos não dizemos nada. Entre nós os silêncios não são constrangedores.
– Daqui a 3 horas estou aí.
Eu sei.
Não a sinto. Não a abraço. Não a oiço respirar ao vivo há onze meses.
A Maria não quis vir cá. Eu não me consegui afastar do local onde a Teresa foi morta. Quis continuar perto dela.
A minha filha está quase a embarcar. Um ano depois de a Teresa ter sido esfaqueada. Um ano depois de eu ter sugerido que se calhar o melhor seria a Maria fazer Erasmus porque ela não conseguia deixar de estar à varanda a olhar para o local onde tudo aconteceu.
Finalmente vou estar com a Maria.
O toque do Skype vai descansar durante um mês. Durante um mês vamos estar os dois juntos. Durante um mês vamos terminar o luto em conjunto. Durante um mês vamos preparar-nos para aquilo que será a nossa vida daqui para a frente.
Não podemos continuar a esperar que a Teresa regresse. Não posso. Isso não vai acontecer. Ter voltado ao escritório, sobretudo ao tribunal, há 3 meses, foi a melhor decisão que tomei recentemente. Não irei continuar com uma aceitação resignada. A ser apenas um visitante na minha vida.
Temos de seguir com o nosso caminho. Eu e a Maria. Eu e outra pessoa. A Maria e outra pessoa. É o que gostaria que a Teresa tivesse feito se fosse eu a ir ao multibanco naquela noite.
A Teresa nunca será esquecida. Fará sempre parte da minha vida. Da nossa. Um vínculo perpétuo.
– Estou com tantas saudades tuas.
– Eu também querida. Eu também.
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