E DEPOIS DO ADEUS

Por: Francisco Salgueiro

Encontramo-nos sentados lado a lado e sinto que finalmente tudo acabou. A esperança da reconciliação é apenas uma utopia.
Estamos em silêncio há mais de 15 minutos. Não há palavras. São engolidas pelos pensamentos. É este o efeito do fim.
À nossa frente uma enorme fogueira faz-me lembrar o dia em que nos conhecemos. Na praia. Numa noite de verão. Numa festa. Nessa altura havia optimismo. Tudo ia correr bem. Como podia não correr?
Um slide show de memórias desse momento invade a minha cabeça. Talvez seja uma tentativa de me abstrair da decisão tomada. Uma decisão para a qual fui empurrado.
A fogueira está cada vez maior. Praticamente fora de controlo. Os gritos afónicos do fogo são intercalados pelos das pessoas à nossa volta. Tal como na noite em que nos conhecemos. Exaltadas. Agora não há areia nem mar. Apenas pedras da calçada e asfalto.
A noite aquece-nos mas o passeio está gelado. É aí que estamos sentados. Aperto-lhe a mão com muita força. Ela retribui-me. Será esta a última vez que o  iremos fazer. Talvez noutro sítio, noutra altura, consigamos voltar a sentir que fazemos parte de alguma coisa. Agora não. Isso é passado. Apenas memórias.
É a solidão da saudade que me invade. Imagino que a Maria sinta o mesmo.
– Vamos? – Pergunta-me sem tirar os olhos da fogueira.
Tento abrir a boca. Quero dizer-lhe que não. Quero adiar esse momento até ao infinito.
Sei que depois de nos levantarmos nada voltará a ser como dantes. Haverá lágrimas, abraços, uma sensação de aperto e promessas que sabemos impossíveis de serem cumpridas.
Eu não quero. Eu não mereço. Penso em tudo o que poderia ter feito de melhor. Talvez se me tivesse esforçado mais. Talvez se me tivesse importado mais. Talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Talvez, mas não fiz. Talvez, mas não foram.
A Maria levanta-se e eu finjo que não reparo. Foco a minha atenção nas pessoas que correm desordenadas à minha frente. Umas com roupas rasgadas. Outras com sangue a escorrer pela cara. Outras com máscaras. Outras com capacetes.
No ar vejo pedras a voar. Caixotes do lixo são atirados para dentro da fogueira. Barreiras metálicas encontram-se entrelaçadas.
Flashes vão intercalando esta esquizofrenia de acontecimentos que acontecem à nossa frente.
Debruço a cabeça nos joelhos e começo a chorar. Por mim, pela Maria, pela minha família, pelos meus amigos, pelo meu país.
Daqui a cinco horas deixamos Portugal. Para sempre? Talvez. Trabalhei durante dez anos. Há três que não arranjo emprego. O subsídio de desemprego acabou-se. Não posso mais viver em casa dos meus pais. Tive de arranjar uma solução.
Emigrar. Não por opção.
Sinto-me a ser expulso. Involuntariamente arrancado da minha pátria. A terra de um homem, na qual se criam valores, laços afectivos e culturais. Uma identidade. A nossa identidade. O que resta dela?
A Maria e eu viemos aqui para a frente do Parlamento assistir a mais uma manifestação. Pensámos que talvez as coisas pudessem melhorar. Seria desta vez. A derradeira. Alguém descobriria a solução. Já não teríamos que ir embora. Amanhã chamariam pelos nossos nomes no aeroporto mas nós não estaríamos lá.
Não aconteceu. Já nem sequer temos direito de sonhar.
Enquanto subimos pela Calçada da Estrela, e ouvimos ao longe vidros a serem partidos e carrinhas da polícia de intervenção a chegar, abraçamo-nos. É um abraço com uma força vazia, que tentamos preencher com os projectos idealizados para os próximos tempos. Ainda não existem. Apenas um destino. Apenas uma esperança. Um bilhete só de ida.
Pelo menos, temo-nos um ao outro.
Choramos. De dor. De tristeza. De abandono. De saudade.
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